Município mais ao Norte do Brasil tem pior qualidade de vida do país, aponta estudo
19/05/2026
(Foto: Reprodução) Sede da cidade de Uiramutã, cidade proporcionalmente mais indígena do Brasil
Josivan Antelo/Rede Amazônica
O município mais ao Norte do Brasil, Uiramutã, em Roraima, registrou a menor pontuação de qualidade de vida do Brasil pelo terceiro ano consecutivo. Os dados são do Índice de Progresso Social (IPS) 2026, divulgado nesta quarta-feira (20), que avalia o desempenho social e ambiental de 5.570 municípios do país.
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O IPS mede a entrega de serviços públicos à população por meio de 57 indicadores. A pontuação vai de zero a 100. Uiramutã obteve a nota 42,44 e ficou na última posição nacional, assim como em 2024 e 2025. A cidade de Gavião Peixoto, em São Paulo, lidera o ranking com 73,10 pontos.
Roraima tem mais dois municípios entre os 20 piores desempenhos do país. Alto Alegre registra a nota 44,72 e ocupa a 5.568ª posição. O município de Amajari, por sua vez, está no 5.566º lugar, com 45,58 pontos.
Em nota, a prefeitura de Uiramutã afirmou que reconhece os desafios históricos e estruturais enfrentados pelo município, "especialmente por se tratar de uma das regiões mais isoladas do país". A gestão informou que, desde 2021, construiu mais de 15 escolas, implantou postos de saúde e busca ampliar investimentos em saneamento, habitação e abastecimento de água.
"A gestão municipal entende que os índices apresentados refletem a necessidade de ampliação dos investimentos federais — incluindo a atuação da FUNAI — e estaduais, considerando que a maior parte do território municipal está localizada dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Esses investimentos são fundamentais para superar a carência histórica de infraestrutura básica, especialmente nas áreas de água, saneamento e habitação", disse. Leia a íntegra da nota mais abaixo.
O governo do estado informou que os índices do IPS são avaliados pela Secretaria de Planejamento e Orçamento (Seplan) como "um importante instrumento de diagnóstico das desigualdades regionais e dos desafios históricos enfrentados pelos municípios mais isolados do Estado, especialmente Uiramutã, Alto Alegre e Amajari."
"Esses municípios possuem características territoriais e geográficas complexas, com extensas áreas indígenas, baixa densidade populacional, comunidades de difícil acesso e altos custos logísticos para manutenção contínua de serviços públicos. No caso de Uiramutã, que aparece na última posição do ranking nacional, grande parte da população vive em comunidades indígenas localizadas em áreas remotas, o que amplia os desafios relacionados à educação, segurança, conectividade, infraestrutura e acesso às políticas públicas."
O que puxou a nota para baixo
O índice de Uiramutã caiu principalmente pelos resultados nas áreas de Necessidades Humanas Básicas (41,56 pontos) e Fundamentos do Bem-estar (49,32). A cidade ficou em último lugar nacional nessas duas áreas. Confira os critérios de avaliação de cada uma:
Necessidades Humanas Básicas (nota 41,56): avalia se a cidade atende às necessidades essenciais de sobrevivência da população. A categoria inclui indicadores de saúde primária, nutrição, água, saneamento básico, moradia e segurança. A responsabilidade por esses serviços é da Prefeitura e do Governo do Estado.
Fundamentos do Bem-estar (nota 49,32): mede as estruturas para manter a qualidade de vida. O item engloba o acesso ao ensino fundamental e médio, sinal de internet, telefonia, expectativa de vida e preservação do meio ambiente.
Na área de Oportunidades, o município registrou a nota de 36,45. O critério analisa os direitos individuais, as liberdades de escolha, a inclusão social e o acesso ao ensino superior.
Município mais indígena do Brasil
Uiramutã fica na tríplice fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, a cerca de 280 km de Boa Vista. O acesso à região é considerado difícil, com o trajeto feito majoritariamente por estradas de terra. De carro, a viagem até o município chega a durar 12 horas.
A cidade tem 13.751 habitantes. Desse total, 13.283 (96,6%) se autodeclaram indígenas, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É, proporcionalmente, o município mais indígena do Brasil.
O local tem o menor Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país, com R$ 11.985,64, segundo dados de 2020 do IBGE. Além disso, 52,4% da população sobrevive com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Dessa forma, Uiramutã acumula vulnerabilidades históricas. Os principais desafios do município são:
Extrema pobreza: A economia de Uiramutã depende majoritariamente da agricultura de subsistência e sofre com o escoamento limitado, o que explica os índices econômicos abaixo da média.
Isolamento e logística cara: o acesso à cidade ocorre por estradas de terra irregulares. A dificuldade de transporte encarece os produtos básicos. Em março de 2026, por exemplo, o município registrou a gasolina mais cara de Roraima, com o litro a R$ 9,29.
Vulnerabilidade climática: No período de chuvas, as 222 comunidades do município enfrentam dificuldades pelas cheias dos rios. Em 2025, enchentes destruíram pontes, arrasaram plantações e deixaram crianças sem aulas. O desastre isolou mais de 60% da população. Por isso, a Prefeitura decretou situação de emergência, com validade até janeiro de 2026.
Segurança alimentar em risco: As enchentes de 2025 destruíram plantações de mandioca em comunidades como Makuken, onde a farinha, base da alimentação local, pode levar até dois anos para ser reposta.
A capital de Roraima, Boa Vista, alcançou 64,49 pontos e ocupa o 1.050º lugar no ranking nacional geral. Entre as 27 capitais brasileiras, a cidade está na 19ª posição.
No ranking das unidades federativas, Roraima ficou no 19º lugar, com média de 59,65. O estado supera vizinhos da Região Norte, como Amazonas (20º), Rondônia (23º), Amapá (24º), Acre (25º) e Pará (27º), e ficou abaixo apenas de Tocantins (17º).
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O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) coordena o IPS Brasil em parceria com a organização internacional Social Progress Imperative.
Nota da prefeitura de Uiramutã
A Prefeitura de Uiramutã, ciente dos dados divulgados pelo Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, reconhece os desafios históricos e estruturais enfrentados pelo município, especialmente por se tratar de uma das regiões mais isoladas do país, com elevada proporção de população indígena e jovem. Destaca-se ainda que a sede do município é a única área que não integra a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Ao assumir a gestão em 2021, a administração municipal encontrou diversas demandas urgentes em todas as regiões do município, não apenas relacionadas à moradia, abastecimento de água e saneamento básico, mas também nas áreas de educação e saúde. Desde então, importantes avanços vêm sendo realizados. Já foram construídas mais de 15 escolas municipais, substituindo estruturas precárias que funcionavam em malocões ou casas de taipa, além da implantação de postos de saúde em várias comunidades.
A gestão municipal entende que os índices apresentados refletem a necessidade de ampliação dos investimentos federais — incluindo a atuação da FUNAI — e estaduais, considerando que a maior parte do território municipal está localizada dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Esses investimentos são fundamentais para superar a carência histórica de infraestrutura básica, especialmente nas áreas de água, saneamento e habitação.
No eixo de acesso e mobilidade, a Prefeitura tem firmado parcerias com o Governo do Estado para garantir a manutenção da principal via de acesso à sede do município, assegurando o abastecimento do comércio local — como alimentos, materiais de construção e outros insumos essenciais — que também atende às comunidades da região.
Na área de geração de renda, as parcerias entre os governos federal, estadual e municipal, por meio da adesão aos programas PNAE e PAA, têm fortalecido a agricultura familiar, incentivando a produção local e proporcionando aumento de renda às famílias. Com isso, muitos moradores vêm investindo na melhoria de suas moradias e na qualidade de vida de suas comunidades.
A Prefeitura também destaca a parceria com a CAER (Companhia de Águas e Esgotos de Roraima) e com o Governo do Estado, responsável pela implantação da Microrregião de Água e Esgoto, iniciativa que viabiliza a captação de recursos para ampliar a oferta de poços artesianos, somando-se à estrutura já existente no município.
Além disso, estão sendo desenvolvidas ações conjuntas com o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Saúde Indígena, voltadas à preservação das fontes de água, construção de poços e promoção da educação ambiental nas comunidades, visando ampliar o acesso à água potável nas áreas de maior vulnerabilidade.
Na área de regularização fundiária e habitação, a administração municipal trabalha na regularização das áreas urbanas e comunitárias para viabilizar futuros projetos habitacionais, enfrentando as limitações geográficas e legais da região. Essas ações integram o Plano de Metas e Necessidades Humanas Básicas para o período de 2026 a 2029.
A elaboração do Plano Plurianual (PPA) 2026–2029 estabelece como prioridade a melhoria dos indicadores de saúde, educação e saneamento básico. O planejamento vem sendo construído por meio de audiências públicas e diálogo constante com as comunidades indígenas, garantindo a participação popular na definição das prioridades do município.
A Prefeitura, em parceria com a Câmara Municipal, também tem firmado convênios com os governos estadual e federal para ampliar os investimentos em infraestrutura, incluindo ações conjuntas com a Defesa Civil para auxiliar no monitoramento e manejo de áreas de risco.
Em relação às questões sociais, é importante destacar que o elevado número de famílias indígenas inscritas em programas sociais, como o Bolsa Família, não representa necessariamente situação de extrema pobreza. Além da renda proveniente dos benefícios, muitas comunidades mantêm sistemas tradicionais de produção por meio de roças familiares e comunitárias, cultivando mandioca, milho, feijão, batata, cará, entre outros produtos. Nas feiras comunitárias e regionais, esses produtos frequentemente são utilizados em práticas de troca entre os moradores, fortalecendo a economia local e os modos de vida tradicionais.
Por fim, a Prefeitura de Uiramutã reafirma seu compromisso com a melhoria da qualidade de vida da população, atuando com transparência, responsabilidade e cooperação institucional para superar as desigualdades históricas e promover o desenvolvimento social do município.
Veja reportagem sobre Uiramutã (RR):
Desigualdade de renda em Roraima: Uiramutã registra o menor rendimento domiciliar do Brasi
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